Transtornos Mentais e do Comportamento Relacionados ao Trabalho dos Agentes Penitenciários do Estado de Santa Catarina

Márcio José de Santana1, Roberto Moraes Cruz2

Investigações em Epidemiologia Psiquiátrica têm sido realizadas para maior compreensão sobre a ampla ocorrência dos transtornos mentais na população em geral e suas conseqüências, diretas e indiretas, no prejuízo do funcionamento individual, social e familiar. (Da Costa, 2004). Apesar de possuírem menor grau de severidade quanto aos sintomas e duração, comumente estão associados a alguns “eventos de vida e produtores de estresse” tais como: problemas financeiros devido a baixa renda, desemprego, trabalho informal, baixa escolaridade, doenças crônicas, baixo apoio social etc. Fiorotti et. al. 2009).

Segundo Ballone (2008), os transtornos mentais são alterações do funcionamento da mente que derivam do conjunto de fatores como: disfunções cerebrais, fatores genéticos, fatores da própria personalidade do indivíduo, condições de educação, decorrentes do stress, agressões de ordem física e psicológica, perdas, decepções, frustrações, sofrimentos físicos e psíquicos que perturbam o equilíbrio emocional. São fatores que prejudicam o desempenho da pessoa na vida familiar, social, pessoal, no trabalho, nos estudos, na compreensão de si e dos outros, na possibilidade de autocrítica, na tolerância aos problemas e na possibilidade de ter prazer na vida em geral. Não há uma causa peculiar. A faculdade da sua formação estaria relacionada a fatores biológicos, psicológicos quanto sócio-culturais. (Ministério da Saúde do Brasil, 2001). 

A medicina utiliza o termo “doença” quando as alterações da saúde de uma pessoa possuem uma causa determinada – uma etiologia – acarretando alterações físicas detectáveis. O termo “transtornos”, por outro lado, é utilizado para designar agrupamentos de sinais e sintomas associados a alterações de funcionamento sem origem conhecida (Ballone, 2008).

Os transtornos podem ser orgânicos ou funcionais, sendo chamado de orgânicos quando apresentam um problema num determinado órgão em mau funcionamento detectável, ou seja, quando é causada diretamente por anomalias estruturais cerebrais, neuroquímicas ou neurofisiológicas na pessoa. Normalmente o que facilita a caracterização de determinado transtorno orgânico é quando o paciente apresenta prejuízos cognitivos consideráveis, como a falta de memória, dificuldade muito grande de orientação, cálculos freqüentemente errados, erros graves de julgamento, falta de compreensão da linguagem... (Ballone, 2008).

Dentre estes, há os relacionados ao processo de trabalho e o ambiente físico desfavorável onde ele ocorre. São eventos produtores de alta demanda psicológica constituindo condição de risco para o desenvolvimento de doenças mentais mais graves (Da Costa, 2004). Segundo o Relatório Final da III Conferência Nacional de Saúde Mental, o ambiente e as condições de trabalho tem sido responsável pela piora das condições de saúde e pela mudança do perfil epidemiológico de adoecimento dos trabalhadores, com destaque para o aumento das doenças relacionadas ao trabalho e de alguns transtornos mentais comumente encontrados na população adulta em geral, conhecidos como TMC, exemplificam a possibilidade, na qual, em decorrência do trabalho somam-se ou multiplicam-se as condições provocadoras ou desencadeadoras de quadros nosológicos caracterizando-se como importante problema de saúde pública (Santos et al., 2009 p.34).

Transtornos Mentais Comuns (TMC) é uma expressão criada por Goldberg & Huxley (Fiorotti et. al 2009, P. 319; Pinheiro 2003, P.09; Ludemir 2005, P. 199; Santos et.al 2009, p. 34) para designar uma categoria que inclui sintomas como insônia, fadiga, irritabilidade, esquecimento, dificuldade de concentração e queixas somáticas. Tal conceito não se remete a uma classe diagnóstica formalizada pela CID-10 (Classificação Internacional de Doenças, 10ª revisão, da Organização Mundial de Saúde) ou DSM IV (Diagnostic and Statistical Manual for Mental Disorders, IVª versão, da Associação Psiquiátrica Americana), e sim, a um grupo de diagnóstico que abarca uma variedade de sintomas com elevada prevalência na população geral adulta.

De acordo com Braga (1993), muitos são os fatores pertinentes apontados pelos especialistas para a existência de Transtornos Mentais Comuns na sociedade em geral. Dentre os citados estão: os atributos da pessoa, as atribuições inerentes à função desenvolvida, aspectos familiares e sociais. Com relação ao trabalho, vale ressaltar: o baixo salário, exclusão do mercado formal, o desemprego e a alta demanda psicológica. Tal demanda se configura em pressões exercidas pelas atribuições as quais os trabalhadores são submetidos, podendo surgir a partir da excessiva carga de trabalho a ser executado em horário determinado, assim como pelo descompasso entre o trabalho a ser executado e a capacidade daquele que a executa (Karasek, 2005).

Tanto no Brasil quanto no exterior a alta prevalência da morbidade psiquiátrica encontrada refere-se a distúrbios não-psicóticos. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 30% dos trabalhadores ocupados foram atingidos por estes transtornos. No Brasil, segundo informações do INSS com relação a concessão de benefícios previdenciários como auxílio-doença, incapacidade para o trabalho superior a 15 dias, aposentadoria por invalidez ou incapacidade definitiva para o trabalho indicam os transtornos mentais como doença, com destaque para o alcoolismo crônico, ocupando o terceiro lugar entre as causas dessas ocorrências (Ministério da Saúde do Brasil, 2001).

Algumas atividades podem fornecer maior influencia para o sofrimento psicológico daqueles que as executam, podendo tornar-se insuportável, contribuindo para a “desorganização ou desajustes internos das pessoas”. Após certo período de exercício profissional em ambientes “precarizados, perigosos e insalubres, os funcionários sucumbem à nocividade presente nas esferas e no ambiente profissional” (Lourenço 2010 p.41).  A atividade prática dos agentes penitenciários é realizada num ambiente insalubre, precarizado, perigoso e com grande propensão ao desenvolvimento de vários distúrbios. E influenciado por este contexto, este trabalhador passa um determinado tempo de sua vida, constituindo e desenvolvendo suas dinâmicas individuais.

A violência nas ruas e penitenciárias, apresentada principalmente pela mídia, somada aos acontecimentos constantes nas suas rotinas diárias pode exacerbar a preocupação e a tensão já acumuladas no indivíduo (Vasconcelos, 2008). A reação devido o estado tenso está comumente relacionada a grupos de sintomas que caracterizam distúrbios psiquiátricos de humor, de ansiedade, de sono, emocionais etc. (Tartaglini & Safran, 1997), podendo acarretar distúrbios psicossociais desenvolvendo conseqüências problemáticas na sua produção profissional, atingindo também sua vida pessoal. Afinal,sua atuação se desenvolve num contexto organizacional afetado por diversas variáveis ambientais e laborais,onde risco de luta e fuga é real. Isso se transforma numa realidade preocupante, visto que a constante exposição a circunstâncias negativas como ansiedade, por exemplo, predispõe ao adoecimento. (Santos et.al., 2009)

Além da peculiaridade do ambiente prisional, existem outros fatores que provocam reações de tensão, chamados de estressores. Alguns estressores como: a desvalorização profissional, a falta de uma política de ascensão, a sensação de insegurança, pagamento inadequado, conflitos no desempenho da função, a ausência de autonomia nas decisões, a insuficiência de motivação, alta carga de tarefas, a falta de apoio social etc., geram insatisfação e a perda de sentido no trabalho (Schaufeli & Peeters, 2000).

Embora exista uma imprecisão teórica na aplicação do conceito de estresse para além da sua dimensão na física e na biologia (Jaques, 2003), é vasta a literatura relativa a abordagem deste tema, assim como sobre a dimensão da “inter-relação entre trabalho e o processo saúde/doença mental” (Baranauskiene et al.2010; Micieli 2006; Brough & Williams 2007; Ghaddar et al.2008; Goldberget al. 1996; Lambert & Cluse-Tolar, 2007). Outra síndrome relacionada ao trabalho e o processo saúde/doença mental é o burnout. Traduzida como a síndrome do esgotamento profissional trata-se de uma reação à “tensão emocional crônica” gerando uma “exaustão emocional” (Schaufeli & Peeters, 2000; Morgan et al., 2002).

 Esta “inter-relação”, ocasionada pelos estressores, é determinada em boa parte pelo tipo de atividade, como está organizado e pelo local onde é desenvolvido (Schaufeli & Peeters, 2000). Neste contexto, a Saúde Ocupacional ocupa uma dimensão no âmbito dapsicologia como ciência e profissão nos seus diferentes campos de atuação, aumentando a demanda de estudos na relação da doença mental versus a freqüência da atividade e o nível de exposição ao ambiente. Sua concepção está baseada na causa multifatorial do adoecer, “que reconhece a multiplicidade ou interação de vários agentes físicos, químicos, mecânicos e biológicos como causadores de acidentes e doenças” (Domingo & Pianta, 2003 p.03).

O Governo Federal do Brasil reconhece a insalubridade da profissão do agente penitenciário e para combater os índices estatísticos de doenças ocupacionais, reduzir as licenças para tratamento de saúde, acidentes em serviço, mortalidade e afastamentos precoces da atividade laborativa dos profissionais de segurança pública e agentes penitenciários,estabelece a criação do Plano Nacional de Qualidade de Vida (Ministério da Justiça do Brasil, 2010). Pesquisas científicas são necessárias para fornecer ao setor público informações sobre transtornos mentais relacionados ao trabalho colaborando na adoção deinstrumentos avaliadores das funções psíquicas destes profissionais.  O acompanhamento permanente por meio de pesquisa auxilia na intervenção para melhoria das condições de trabalho e de saúde desses trabalhadores.

Isso posto, este estudoobjetivou estimar a ocorrência de Transtornos Mentais Comuns (TMC) nos Agentes Penitenciários do Estado de Santa Catarina.

Método
Participantes
Fazem parte do universo funcional do Sistema Prisional do Estado de Santa Catarina 1.804 agentes penitenciários distribuídos em 46 unidades.

Participaram da pesquisa 1104 agentes penitenciários n=61.1% da população total, sendo 808 masculinos e 296 femininos, com a faixa etária variando de 20 à 69 anos, escolaridade do ensino médio à especialização e o tempo de serviço de zero à 156 meses. Mesmo sendo uma unidade penitenciária especificamente de internos masculinos, os agentes femininos trabalham com os familiares e amigos dos detentos na função de revistarem seus pertences no ato da visita.

Tabela 1 - perfil dos participantes (n=1104)

A carga horária de trabalho agente penitenciário é de 40 horas semanais em regime de escala de 24X72, ou seja, vinte e quatro horas de trabalho por setenta e duas de descanso independente dos finais de semana e feriados.

Sua função é amparada por regimes estatutários com direitos, vantagens, obrigações e atribuições especificadas em Leis Estaduais. A investidura para este cargo dá-se através de Concursos Públicos, comumente organizados por instituições designadas pela Secretaria de Administração dos Estados. O cargo possui atribuições específicas desenvolvidas através de atividades práticas rotineiras e de vigilância. A rotina geralmente consiste em conduzir os detentos em escolta pelos diversos setores de atendimento tais como: departamento jurídico, consultórios médicos e dentários, aos setores laborais e a liberação para o banho de sol. As funções de vigilância geralmente consistem em estar atento às movimentações e comunicações entre os encarcerados, examinando os sinais, gestos e códigos por eles produzidos, procura identificar os líderes das facções e desconfiar de quaisquer atos por eles causados.

Procedimento de coleta de dados
A coleta de dados foi feita no período que compreende os meses de Agosto de 2011 e Setembro de 2012, por Servidores Públicos Estaduais, cujo empenho foi de grande valia para a pesquisa. O desenvolvimento deste trabalho se deu nos moldes de Corte Transversal, também conhecido como Estudo Seccional ou de Prevalência. Tal estudo é tido por (Almeida Filho & Rouquayrol 2006) como ideal para o provimento imediato de uma dada situação elaborada em determinada área delimitada. Portanto, é recomendado como análise do comportamento de um evento numa população estudada em determinado período. Ainda segundo esses autores, a análise através do corte transversal permite a verificação da exposição e do desfecho “num mesmo momento do tempo” Almeida Filho e Rouquayrol (2006).

Instrumento utilizado para coleta de dados
O formulário utilizado para a pesquisa foi o Self Report Questionnaire (SRQ). Este instrumento foi desenvolvido por Harding et al. (1980) para identificar distúrbios psiquiátricos em nível de atenção primária, sendo validado no Brasil por Mari e Willians (1986). Ele está dividido em quatro grandes grupos: Humor Depressivo-Ansioso, Decréscimo de Energia Vital, Sintomas Somáticos e Pensamentos Depressivos. É composto por 20 questões de assinalar valendo um ponto cada uma, tendo como opção duas escolhas: afirmativo ou negativo. As vinte questões estão subdivididas em quatro para os sintomas físicos e dezesseis para os sintomas psicoemocionais elaboradas para detecção de distúrbios “neuróticos”, chamados atualmente de transtornos mentais comuns (TMC).  

Procedimento de coleta de dados
Após autorização da Direção de cada unidade, a aplicação do instrumento foi realizada de forma individual, dentro do complexo penitenciário e com a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido conforme a Resolução CNS nº 196/96 fornecida pelo Instituto Federal de Santa Catarina. Foram utilizados os testes de distribuição Kolmogorov-Smirnov e Shapiro-Wilk para indicar as variáveis contínuas. E os testes de Chi-quadrado e Phi e V de Cramer para indicar a associação entre o SRQ e as variáveis investigadas.

Procedimento de análise dos dados
Os dados coletados foram analisados em termos de freqüência absoluta e percentual. A mensuração utilizada no SRQ-20 é de um ponto para cada resposta. O escore utilizado para sinalizar a presença de TMC foi de sete ou mais respostas afirmativas. A obtenção deste escore ocorreu pela determinação da sensibilidade, especificidade e dos valores obtidos em amostras de outras pesquisas. 

Resultados
Ambos os testes de distribuição, Kolmogorov-Smirnov e Shapiro-Wilk, indicaram que as variáveis contínuas da pesquisa não apresentam distribuição normal (Tempo de Profissão K-S = 0,15, p < 0,000; S-W = 0,82, p < 0,000 e; Idade K-S = 0,10, p < 0,000; S-W = 0,95, p < 0,000). Nisso, ambas essas variáveis, para o cálculo do chi-quadrado, foram divididas com base em suas medianas.

De acordo com a tabela 2, os coeficientes de correlação apresentam somente associações fracas (menores que 0,4), porém, significativas em sua maioria. A associação mais forte é exibida entre a escolaridade e o tempo de profissão (r = 0,37) e a mais fraca entre o sexo e o SRQ (r = 0,03). Conforme os dados exibidos, os funcionários com maior idade e tempo de profissão tendem ser do sexo masculino, assim como possuir menores escores no SRQ.

Com base no ponto de corte do SRQ (sete ou mais pontos), calculou-se a sua associação com as demais variáveis categóricas e com as variáveis contínuas divididas em grupos acima e abaixo de suas respectivas medianas. Os testes de Chi-quadrado indicam associação entre o SRQ e todas as variáveis investigadas (Tempo de Profissão Chi2 (1) = 57,06, p < 0,000; Idade Chi2 (1) = 23,16, p < 0,000; Sexo Chi2 (1) = 14,24, p < 0,000 e; Escolaridade Chi2 (3) = 16,73, p = 0,001). Os testes Phi e V de Cramer indicam que o SRQ elevado se relaciona com pouco tempo de profissão (Phi = -0,23), com jovens (Phi = -0,15), com o sexo feminino (Phi = 0,11) e com baixa escolaridade (V = 0,12).

Tabela 2 – correlação entre o tempo de profissão, idade, sexo e escolaridade e o SRQ

Foram considerados o gênero, a faixa etária, a escolaridade, a idade, o tempo na instituição e ocômputo de sete ou mais respostas afirmativas, cuja constatação sinaliza a presença de sintomas compatíveis ao quadro de Transtornos Mentais Comuns conforme os critérios do SRQ.

Em consonância com a tabela 2, dos 1104 agentes penitenciários que responderam o questionário, 216 apresentaram alto SRQ – pontuação igual ou acima de sete pontos positivos. Chama-se a atenção para a parte maior da amostra (n = 808), ou seja, 73.2% são do sexo masculino. Neste caso, a diferença estatística foi significante pela quantidade numérica masculina ser superior. Houve variação na taxa de resposta conforme o sexo, haja vista a parte feminina corresponder a 26,8% do total da amostra (n=1104). 

Distribuiu-se a faixa de idade da amostra total (n=1104) em dois grupos. Houve significância maior para o grupo jovem – alto SRQ – (n = 129) sendo 11,7% da amostra estudada (n=216) com a idade até 31, ficando o grupo velho – baixo SRQ – (n=87) sendo 7,9% da amostra (n=216), idade acima de 31 anos com significância menor.

Com relação à escolaridade, observou-se taxa maior para o grupo que apresentou escolaridade no nível de especialização (n=632) da amostra total (n=1104).No momento da pesquisa, 8,9% da amostra estudada (n=216) apresentaram alto SRQ.

O intervalo de tempo de profissão – descrito em meses – se caracterizou, na amostra estudada (n=216), que 14,2% (n=157) possuem pouco tempo de profissão. Ou seja, menos de três anos no momento da pesquisa.

Devido os teste Phi e V de Cramer indicarem relação entre o SRQ e o sexo feminino, decidiu-se demonstrar na tabela 3,os itens mais repetidos em relação a termos de freqüência absoluta (f) e percentuais (%) quanto a distribuição dos sintomas de Transtornos Mentais Comum nas pessoas da amostra estudada (n=216) separadas por sexo.

Tabela 3 – distribuição em termos de freqüência absoluta (f) dos itens mais repetidosde acordo com o total da amostra estudada (n) em termos de percentual (acima de 50) de acordo com o SRQ.

Os dados na tabela 3mostram que dos quatro grandes grupos de sintomas psicoemocionais nos quais o instrumento SRQ-20 está dividido, o sintoma mais destacado foi o Humor Depressivo-Ansioso, poisa questão mais assinalada foi sente-se nervoso, tenso e preocupado” apontando o gênero masculino (n = 120) (88.2 %) e o feminino (n = 80) (100%).

Trata-se de um sintoma psicoemocional cuja característica supõe-se ser intrínseca do trabalho, pois a rotina laboral dos agentes penitenciários necessita de constante atenção e vigilância, gerando tensão e preocupação.

Tal suposição vai ao encontro do conceito de ansiedade definido por Castillo et al.: “Ansiedade é um sentimento vago e desagradável de medo, apreensão, caracterizado por tensão ou desconforto derivado de antecipação de perigo, de algo desconhecido ou estranho” (2000, p.1).

A ansiogenia também é assinalada no trabalho de DOS Santos et al., ao obter resultados, quanto a exposição dos Agentes Penitenciários  a situações que causam ansiedades elevadas (2010 p.37-38) 

Estudos realizados na Espanha com agentes penitenciários (GHADDAR  et al, 2008) e na França com trabalhadores de prisão (GOLDBERGet al. 1996) também observaram a existência de sintomatologia de ansiedade.

Os sintomas Decréscimo de Energia Vital e Pensamentos Depressivos também tiveram destaque expressivo na amostra.

Seguindo a tendência dos resultados da pesquisa, o que se percebe é a grande incidência de questões relacionadas à afetividade especificamente ligadas ao humor e a depressão. Com relação o humor, (TARTAGLINI E SAFRAN, 2010) relataram uma prevalência de distúrbio em 18,6% dos Agentes Penitenciários, inferindo que tal incidência é mais alta do que na população em geral.

Para a psicopatologia o termo Depressão é uma forma genérica que significa tristeza patológica designando a alteração do humor tanto na sua inibição quanto na sua exaltação. O Humor faz parte da afetividade e sua alteração pode se transformar num estado patológico. É tido como o estado de ânimo da pessoa e definido como “o tônus afetivo do sujeito” (DALGALARRONDO, 2000 p.105).

Outro ponto demonstrado na tabela 3 de imprescindível notificação são os sintomas Humor Depressivo Ansioso, Sintomas Somáticos e Decréscimo de energia vital na questão “sente-se cansado o tempo todo” onde as mulheres apresentaram maiores índices de incidência do que os homens equivalendo a maior parte. A que se deve isso? Ousamos supor ser uma questão de atribuição à dinâmica do poder que pode representar opressão do gênero feminino numa Instituição Penitenciária, constituindo um possível resquício de machismo. Ou ainda a possibilidade das mulheres apresentarem maior sensibilidade às questões relacionadas à afetividade. O que nos daria uma melhor direção por onde iniciarmos o movimento de mudança: dando atenção ao que a sensibilidade pode nos ensinar.

Conforme a tabela 2, também houve representatividade no SRQ elevado na relação com o pouco tempo de profissão. Tal semelhança é caracterizada por aqueles com menos de três anos de profissão, haja vista que em sua prática diária ainda possuem estreita relação com os detentos. Já os com muito tempo, geralmente estão em outros postos, em cargos administrativos ou mais elevados, distanciando-se das práticas funcionais e a exposição a situações de grandes demandas psicológicas às quais os profissionais com pouco tempo estão sujeitos. Tal demanda sugere um esgotamento profissional conforme descrito por (PEREIRA, 2011 p.87) como “(...) um sofrimento típico das profissões em que aspectos relacionais e afetivos do sujeito são requeridos no trabalho”.

Discussão
Percebeu-se, através do questionário SRQ, maior freqüência em determinados temas, proporcionando uma melhor aproximação sobre as conseqüências na Saúde daqueles que trabalham junto aos apenados no interior do cárcere. Os resultados apontaram associações entre a vida cotidiana dos agentes e as exigências impostas pelo trabalho desenvolvido na Instituição Penitenciária. A falta de perspectiva de ascensão, a desvalorização profissional, a contínua e desenfreada troca dos superiores aliada à falta de traquejo destes, fazem parte das muitas questões cuja vida cotidiana dos Agentes está condicionada.

Assim como estudos anteriores de prevalência do tipo corte através de questionário, este também pode estar sujeito a obliqüidades quanto a trabalho de campo, coleta de dados, erros na classificação dos Transtornos e outras possíveis desatenções alheias a nossa vontade. Para minimizar tal possibilidade, teve-se o cuidado de pontuar bem a amostra de entrevistados, ou seja, somente os agentes penitenciários envolvidos nas atividades diárias com os reeducandos, assim como a realização do trabalho de entrevista e coleta de dados serem feitas por um terceiro que não envolvido na pesquisa.

Para o alcance dos resultados de TMC nesta pesquisa, foi utilizado o Self Reporting Questionnaire (SRQ-20). Trata-se de instrumento testado e validado no Brasil. Para compilação dos dados obtidos entre o SRQ e as variáveis, foram utilizados os testes de distribuição Kolmogorov-Smirnov, Shapiro-Wilk, Chi-quadrado e Phi e V de Cramer.

O desenvolvimento da pesquisa teve como base alguns estudos voltados para a saúde mental dos Agentes Penitenciários cujo banco de dados serviu para posterior comparação e ajuda na compilação dos resultados. Tal fato foi muito positivo, pois possibilitou ganho no tempo e maior praticidade no entendimento de algumas questões.

Sexo, idade, fatores socioeconômicos, escolaridade, atividade laboral e outros, são fatores considerados estando associados aos TMC. Utilizando dados de outros estudos e os apresentados neste trabalho, constatou-se – conforme a tabela 2 – uma presença significativamente maior de TMC no sexo feminino. Entretanto, tal fato não estaria ligado ao gênero em si, mas a todo este complexo ambiente social e cultural no qual estamos inseridos.      

Considerações finais
O contingente que trabalha no interior das prisões, em sua grande maioria, faz parte do gênero masculino. A maior parte das pessoas pesquisadas possui algum tipo, se não vários sintomas de Transtorno Mental Comum. A existência de tais sintomas sugere uma constante exposição a situações que exigem grandes demandas psicológicas no cotidiano da atividade desenvolvida.

A relação entre os conceitos colocados e os resultados obtidos na pesquisa pode explicar as recorrentes demonstrações de absenteísmo, desinteresse pelos objetivos da Instituição, baixa auto-estima, falta de cooperativismo etc..

Havendo interesse de sanar esse problema seriam necessárias duas frentes de atuação: uma preventiva e outra curativa. Ambas seriam da alçada dos serviços de assistência psicológica e social, para amenizar os sintomas e evitar que novos casos surjam. Essas ações necessariamente precisam ser constantes e elaboradas com profundo conhecimento das reais demandas dos trabalhadores em questão.

Vale ressaltar a necessidade de uma política de assistência psicológica designada especificamente para esse fim, já assinalada em outros trabalhos, ao propor um Serviço de Assistência Psicológica a esses profissionais oferecendo um espaço de acolhimento ao sofrimento advindo das suas práticas diárias.

Contudo o estudo não nos permitiu saber se as pessoas entrevistadas, ao adentrarem no Sistema Penitenciário, já eram possuidoras de tais transtornos psicológicos ou, se já possuíam estes sintomas e o trabalho desenvolvido dentro da Instituição os exacerbou. De qualquer modo, sendo a função de essencial valia para o Estado e para a sociedade como um todo, consideramos o atendimento das necessidades apresentadas na pesquisa das demandas destes profissionais, no que diz respeito aos Transtornos Mentais Comuns, uma emergência. Afinal, é da segurança e da saúde da população que estamos falando.

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